Davide Prosperi na inauguração do Centro de Estudos Luigi Giussani. Roma, 7 de março de 2026 (©Fraternità CL)

Prosperi: «Don Giussani e a raiz do humano»

As palavras do Presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação na inauguração do novo Centro de Estudos Luigi Giussani. Roma, 7 de março de 2026
Davide Prosperi

Gentis convidados, membros dos comitês científicos, executivo e dos consultores, amigas e amigos: bem-vindos à inauguração do Centro para os estudos sobre o pensamento de don Luigi Giussani. Hoje, para a Fraternidade de Comunhão e Libertação, é um momento de festa, porque com este Centro abre-se uma nova possibilidade de partilhar com todos, na Igreja e no mundo, os escritos e o material documental de don Giussani publicados até agora.

A intenção da Fraternidade ao criar este projeto, com efeito, é a de aprofundar o pensamento de don Giussani também numa dimensão académica, confiando na repercussão que isso possa ter depois em toda a sociedade. Neste sentido, o Centro de Estudos é um dos muitos modos – muitos já postos em prática – de desenvolver todo o potencial do carisma confiado a don Giussani, sem fechamentos autorreferenciais, mas sim em diálogo com qualquer perspetiva humana, social e especulativa. Aliás, este trabalho de aprofundamento da herança teológica, filosófica e, mais em geral, cultural corresponde também a um convite bem-vindo por parte da autoridade da Igreja (especificamente os últimos papas e o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida). Entre as várias dimensões de Giussani, conta-se também a de ser um pensador (um teólogo e um filósofo) e de ter sugerido múltiplas inspirações em disciplinas diversas como literatura, arte, música, história, direito e, às vezes, até mesmo em disciplinas científicas.

Com o Centro de Estudos, a Fraternidade pretende oferecer a todos os estudiosos do mundo a possibilidade de abordarem, ou aprofundarem, este pensamento inovador, original ou «fecundo» – como disse o cardeal Scola – e esta intenção pretende ser levada adiante nas dimensões e com os instrumentos científicos habituais em uso no âmbito académico. Portanto, tal como para qualquer personalidade de grande impacto cultural, será possível aproximar-se de don Giussani para aprovação ou crítica, para fins gerais ou específicos, por paixão ou por oportunidade, por interesse histórico ou especulativo. Com efeito, foi precisamente encontrando don Giussani que nos tornámos certos de que o que une os seres humanos é a busca da verdade e que, nessa busca, todos encontram conforto e ajuda em outras pessoas comprometidas no mesmo intento.

Portanto, nunca há receio da crítica no caminho para a verdade, mas apenas a possibilidade de ampliar a amizade e a fraternidade.

Não nos espanta o facto de que tal pensamento provenha de pessoas ligadas a don Giussani. Foi o próprio don Giussani quem nos ensinou que há uma «consanguinidade» entre quem encontrou a verdade feita carne e quem a procura sinceramente [1]. Esperamos que o Centro de Estudos, com as suas possibilidades de congressos, estudos, workshops e publicações, possa ser uma ocasião de aprofundamento dessa consanguinidade.

Antes de dar a palavra aos conferencistas do dia, permitam-me fazer uma observação a este propósito, nascida da minha leitura pessoal e apaixonada dos textos de don Giussani. A observação é que ele tinha uma imensa estima pela razão humana e um sentido não elitista dela. Nos seus termos, somos todos um pouco filósofos, porque dotados de uma razão que é feita para conhecer e saborear a verdade. Cito, a este propósito, uma passagem do texto É (verdadeiramente?!) possível viver assim?:

«Lamento, meus amigos: o homem ou sente como um cão ou pensa como um filósofo. O homem é essencialmente filósofo, amante da consciência – filósofo: amante (filos) da sabedoria, do conhecimento, da consciência –: é aquele nível da natureza em que a natureza toma consciência de si e diz eu»[2].

«Lamento, meus amigos: o homem ou sente como um cão ou pensa como um filósofo. O homem é essencialmente filósofo, amante da consciência – filósofo: amante (filos) da sabedoria, do conhecimento, da consciência –: é aquele nível da natureza em que a natureza toma consciência de si e diz eu».

Ou, noutro trecho do mesmo texto:

«Porque alguém que vai ao Instituto Sagrado Coração [de Milão] de manhã para dar aulas, se “reconhece” que vai dar aulas, já é um empreendedor do pensamento, já é um pouco filósofo, que é o empreendedor do pensamento (isto é próprio do homem, é o desenvolvimento do homem)»[3].

Na sua conceção positiva do trabalho humano, na qual se uniam a tradição católica lombarda e o temperamento ardente, don Giussani identificava o ofício do pensamento como a raiz de qualquer outro ofício humano. Todos os seres humanos são «um pouco filósofos» quando refletem sobre o que estão a fazer e, portanto, são um pouco «empreendedores do pensamento». Mas há uma especificação deste trabalho do pensamento, que encontrei bem expressa numa intervenção até agora inédita de Giussani, dirigida aos noviços dos Memores Domini, que me foi indicada: «O maior trabalho, filosoficamente falando, é sobre o instrumento do pensamento: como se concebe o pensamento, assim se concebe também aonde se chega, define-se aonde se chega. Mas foi exatamente tratando de coisas bem diferentes, como as de Jesus e de Maria, que percebi o que é o verdadeiro conhecer. O verdadeiro conhecer […] é um juízo (o conhecer é um ajuizar, o conhecer como ajuizar), é um perceber que traz consigo, que arrasta atrás de si, que tende a arrastar consigo toda a sensibilidade do indivíduo, ou fixa o indivíduo em como a coisa – que depois deverá dizer que conhece – o atrai. Não existe conhecimento, melhor, um pôr em movimento do nosso coração, não há uma atividade do coração que não tenha de partir de um juízo (no qual domina a inteligência) ligado a outro fator, que é a afetividade (a forma atrativa da relação)» [4].

Centro de Estudos Luigi Giussani - Novo Website do Centro de Estudos dedicado ao fundador do CL

É um belo texto, no qual vem ao de cima a abordagem epistemológica de don Giussani, que se apoia no juízo e na experiência humana também para falar de Deus e, ao mesmo tempo, encontra precisamente na fé um fortalecimento e um cumprimento do uso do pensamento e, portanto, da própria experiência humana.

É a este trabalho sobre o instrumento do pensamento que todo o ser humano é chamado, mas, claramente, os estudos especializados podem dar-lhe um importante contributo, como acontece em qualquer disciplina científica.

Resumindo, e para além das questões técnicas que não me competem e cujos desenvolvimentos terei prazer em ouvir, o que me impressiona é que a proposta cristã de don Giussani se apoie de modo tão decisivo numa confiança na razão humana. Claro, a razão descrita por don Giussani não é o mecanismo abstrato – por assim dizer – do iluminismo radical, mas é o instrumento encarnado das exigências humanas mais profundas de verdade, justiça, beleza, bondade. É uma razão ao mesmo tempo universal e não especulativa, profunda e concreta, capaz de análise e de síntese, de demonstração e de oração. Não é um acaso que, com esta visão, don Giussani tenha encontrado e fascinado com a sua proposta católica muitas pessoas provenientes de contextos culturais diversos, muitas vezes de ambientes laicistas e racionalistas, bem como de outros credos e tradições. Ele fê-lo precisamente confiando na capacidade universal da razão humana de reconhecer a verdade, convencido de que tal era a marca deixada em cada um pelo Criador e redimida por Jesus ressuscitado.

Neste sentido, o Centro que inauguramos é, sim, feito para especialistas, mas quer falar a todos, servir a todos. Espero que ele viva desta paixão e desta abertura universais. Desejo a todas e a todos um bom primeiro dia de trabalhos, exemplificativo do que acontecerá nestas salas, e agradeço a todos os que trabalharam para chegarmos a esta inauguração. Bom trabalho!

Notas
[1] «Existe uma insuspeitada consanguinidade entre quem verdadeiramente procura e quem sinceramente encontrou»: L. Giussani, O caminho para a verdade é uma experiência, Tenacitas, Coimbra 2007, p. 132.

[2] L. Giussani, Si può vivere (veramente?!) così?, Bur, Milão 2025, p. 350.

[3] Ibidem, p. 375.

[4] L. Giussani, O ideal e o tempo (notas não revistas pelo autor, pro manuscripto, 20 de dezembro de 1998), p. 6.