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“Magnifica Humanitas”. A urgência de uma aliança educativa

No L’Osservatore Romano, a contribuição de Davide Prosperi sobre a encíclica de Leão XIV. Perante os desafios da inteligência artificial, o papel fundamental da educação para um “desenvolvimento humano integral”
Davide Prosperi, Presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação

Impressionou-me, e faz-me pensar, a ampla e afetuosa participação do povo espanhol na recente visita apostólica de Leão XIV. Creio que uma das razões dessa calorosa adesão está contida nestas palavras proferidas pelo próprio Pontífice nas Cortes: “A Igreja ‘caminha com a humanidade’, partilha as suas esperanças e as suas feridas, ouve as questões de cada época”. São palavras que, para mim, descrevem também o ponto de partida do qual devemos olhar para a primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica humanitas.

Trata-se de um texto intenso e muito bem estruturado, pelo qual o Papa oferece um juízo original sobre a mudança de época que temos atravessado, marcada pela “revolução digital”. A inteligência artificial, que constitui o seu ponto culminante, tem penetrado capilarmente em todas as esferas da vida das pessoas e das sociedades, com um poder de transformação sem precedentes e com a promessa de uma eficiência hiperbólica; mas, ao fazê-lo, obriga-nos a questionar-nos sobre quem somos e o que realmente procuramos. Em jogo – por razões que Leão XIV detalha com precisão – está a “salvaguarda do humano”. Depois de nos ter chamado a atenção para a nossa responsabilidade não só quanto à utilização, mas também quanto à concepção da IA (“Não podemos considerar a IA moralmente neutra. Na realidade, todo artefato técnico traz consigo escolhas e prioridades”, Mh 104), o Papa coloca a questão central: o que significa proteger o humano e o que é que não podemos perder? “O risco não é apenas que algumas tecnologias sejam mal usadas, mas que o paradigma tecnocrático em que estamos imersos, potencializado pela revolução digital e pela IA, faça parecer justa e normal uma visão anti-humana” (112).

As ideologias que servem de pano de fundo à ação de “alguns centros de poder tecnológico”, ou seja, o transumanismo e o pós-humanismo, encaram o ser humano como uma etapa da evolução que será ultrapassada. É uma forma de pensar que também se insinua em nós. “A nossa relação com a vida parece hoje estar em crise. Tudo o que se apresenta como ‘limite’ – incapacidade, doença, velhice, sofrimento, vulnerabilidade – tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir”. Na visão cristã, pelo contrário, o limite e a finitude são parte constitutiva da natureza humana, e é na fragilidade, através dela, que o homem se conhece a si próprio e aprende a amar o outro, abrindo-se “ao reconhecimento do rosto de Deus e do outro”, e pode assim “reconhecer como inviolável a sua dignidade e a dos outros” (118-122).

Magnifica humanitas é uma encíclica que nos convida a encarar a realidade sem vendas nos olhos, com uma paixão pelo destino de cada ser humano. Deve ser lida e meditada com cuidado; por isso, pretendemos colocá-la no centro da atenção da vida do movimento Comunhão e Libertação nos próximos meses, incentivando um trabalho em torno dela. Gostaria, no entanto, de sublinhar desde já um aspecto: perante as oportunidades e os riscos da IA, o Papa não nos convida a posições defensivas, mas enfatiza a urgência de “uma aliança educativa para a era digital”. Na situação de pressão e de desafio em que nos encontramos, “o mundo da educação assume uma importância decisiva” e, nesse contexto, a escola ocupa – a par da família – um lugar central. O “desenvolvimento humano integral” passa, de fato, inevitável e necessariamente, por uma educação capaz de formar um pensamento crítico e criativo e, consequentemente, uma capacidade autêntica de liberdade e de responsabilidade perante os problemas. E os processos educativos requerem um devido “tempo de maturação, de confronto com a realidade que vai além das aparências, e um caminho de paciência”, bem como um “tempo partilhado para aprender e relações de confiança” (139-147).

É uma provocação que nós, educados na fé seguindo o exemplo de Dom Giussani – que dedicou toda a sua vida à educação dos jovens e de um povo –, sentimos com especial intensidade. Ela reaviva a nossa missão no mundo, nos meios e nos contextos de vida. Sentimo-nos ainda mais envolvidos, na primeira pessoa, e desejamos fazer parte da obra a que o Papa nos chama: tornarmo-nos “tecelões de esperança” (245). É esta esperança, que Leão XIV testemunha mesmo nas circunstâncias mais adversas – como as guerras que assolam o panorama mundial atual, expressando “a cultura do poder”, de que se fala no último e fundamental capítulo da encíclica –, aquilo de que o mundo hoje mais urgentemente necessita.

Fonte L’Osservatore Romano