A entrevista de Davide Prosperi no “Corriere della Sera” de 14 de maio de 2026

Don Giussani, uma proposta integral de vida

O presidente da Fraternidade, Davide Prosperi, entrevistado nas colunas do Corriere della Sera, no dia do encerramento da fase diocesana da causa de beatificação do fundador de CL: «Profetizou o regresso à fé. O seu movimento existe em função da Igreja»
Gian Guido Vecchi

«Há qualquer coisa que vai além do reconhecimento do grande pensador, do teólogo de alta craveira. Estamos a falar de um homem que, já há setenta anos, vislumbrou, profeticamente, o que iria acontecer...». Davide Prosperi, de 53 anos, Professor de Bioquímica na Bicocca, é presidente da Fraternidade de Comunhão e Libertação desde finais de 2021, sendo o primeiro leigo à frente do movimento fundado por don Luigi Giussani. Às 17h de hoje, na Basílica de Santo Ambrósio, o arcebispo Mario Delpini celebrará as Vésperas na conclusão da fase diocesana da causa de beatificação e canonização do «Gius», como lhe chamam os celinos. Agora, todo o material recolhido irá para o Vaticano para o início da «fase romana»: a palavra passa para a Santa Sé. «É um passo importante para o movimento e para toda a Igreja, as duas coisas coincidem: o movimento existe em função da Igreja, don Giussani insistiu sempre nesse ponto». 

É um passo significativo, professor, até porque foi em Milão que tudo começou, não foi? 
Don Giussani sempre reivindicou o seu caráter ambrosiano. A postura, acima de tudo: um certo realismo, o apego à tradição da Igreja milanesa. E depois, claro, as origens do movimento... 

No início de outubro de 1954, um sacerdote de trinta e dois anos entrou no liceu Berchet e deu a primeira aula de religião na 1E. Muitos jovens começaram a segui-lo, o movimento da Gioventù studentesca viria a tornar-se Cl... 
Percebeu que estava a acontecer algo de novo. Quatro rapazes apresentaram-se na assembleia e disseram: nós, católicos. Nasceu uma realidade sui generis, no seio da grande Igreja ambrosiana. A obediência à autoridade, mas também elementos de descontinuidade: como os encontros de comunidades mistas, homens e mulheres juntos. Então, era proibido.

O que é que ele viu antecipadamente?
Começava a difundir-se a ideia de que era preciso ceder a compromissos com a modernidade, senão os jovens iam-se embora. Ele intuiu que só a redescoberta da fidelidade à origem cristã poderia ter incidência. Nisto foi profético, se olharmos para o que está a acontecer na Europa: nos países mais secularizados, da França aos países escandinavos, há um regresso impressionante à fé cristã. No vazio de significado, as pessoas procuram um sentido. 

Ratzinger falou de um «novo arianismo»: já não se acredita no essencial da fé... Tratava-se disso?
Não é por acaso que eram amigos: de cada vez que ousava dizer alguma coisa de novo, verificava-a com Ratzinger. Era um perigo a que se assistiu também na Católica, em 68: um olhar sobre a realidade que parte da revolução dos costumes e da sociedade, e não da revolução do eu, de si... 

Em que sentido?
No Meeting, citou Teilhard de Chardin: o perigo maior que a humanidade pode temer, hoje, não é uma catástrofe que venha de fora, mas a mais terrível das doenças espirituais, a perda do gosto de viver. Don Giussani respondeu através de uma experiência integral, uma proposta de vida na qual a fé não é relegada a um espiritualismo interior, mas pretende ser um sujeito capaz de intervir sobre todos os aspetos da vida. 

A clássica acusação aos celinos: são integralistas.
Don Giussani percebia que a acusação era depreciativa, mas, em certos aspetos, reivindicava-a, se bem que em sentido positivo: a integralidade da fé... É bonito que as Vésperas em Santo Ambrósio sejam na festa da Ascensão. Para don Giussani, tinha um valor fundamental: realista, interpretava-a como a descida de Cristo à profundidade do ser.

A morte de um fundador é sempre um momento delicado. Depois de don Giussani, Cl conheceu divisões. Esta causa pode ser uma ocasião para voltar à unidade?
Na verdade, não o sei dizer, mas desejo-o. Já vejo agora, porém, sinais muito claros de recuperação das feridas, antigas e mais recentes, num percurso de fé e educativo em total sintonia e colaboração com a autoridade da Igreja.