Marcos Pou Gallo nasceu em Barcelona em 1991

O dom da amizade

No dia 21 de fevereiro de 2015, o jovem catalão Marcos Pou Gallo, que tinha apenas entrado para o seminário dez dias antes, morreu num acidente de mota em Barcelona
Ricardo Formigo

Antes de morrer, a pedido de um sacerdote seu amigo, tinha acabado de escrever a sua história, na qual narrou o seu caminho, como ele próprio refere: “a história do que Cristo fez comigo”.
Por ocasião do décimo aniversário da sua morte, reunimos aqui os testemunhos de alguns portugueses que, pelo caminho, se encontraram com o Marcos em encontros, festas, casamentos ou mesmo após a sua morte e que ficaram tocados pelo seu testemunho.



Porque é que eu me lembro do Marcos?
À primeira tentativa, não consegui encontrar explicação para responder a esta pergunta. Na verdade, parece fazer pouco sentido porque o meu encontro com ele foi muitíssimo curto e, aparentemente, insignificante.
Recuámos até Dezembro de 2014. A minha memória não é totalmente nítida, mas algumas coisas ficaram impressas.
O meu amigo Michi ia-se casar em Barcelona. Eu e alguns amigos partimos de Lisboa, na sexta-feira antes do casamento, e chegámos ainda a tempo de um serão muito animado nas ruas de Barcelona, entre cervejas e tapas, que tinha sido organizado pelos noivos, para receber os seus amigos, que chegavam de várias partes da Europa.
Tenho a imagem de entrar num bar que tinha duas divisões, uma sala maior e outra menor, ao fundo da primeira. Ambas estavam ligadas e comunicavam entre si.
Recordo-me de entrar e de atravessar o bar até à sala do fundo, onde estavam os noivos e muitos dos seus amigos, entre os quais o Marcos. Lembro-me de ser apresentado a alguns deles, e lembro-me particularmente do Marcos. Devemos ter trocado algumas palavras, mas nada de muito significativo.
O ambiente era de felicidade geral, como é próprio da ocasião. Os portugueses misturaram-se entre espanhóis e italianos, e eu fiquei numa mesa perpendicular à mesa do Marcos. A forma como estava sentado permitia-me ter sempre o Marcos no canto do meu olho, quando não me virava completamente, para ver o que se estava a passar na sua mesa.
Eis o que me lembro mais nitidamente: um rapaz muito alegre, divertido, com piada, que, sem ser impositivo, fazia com que, naturalmente, as atenções se voltassem para ele. Falava enquanto sorria e todos riam com ele. Lembro-me que fazia todos rir.
Lembro-me também de já estar um pouco mais afastado dele, nesse mesmo bar, e, no meio de uma das vezes em que a alegria do que fazia e dizia contagiava os outros, alguém ao meu lado comentou que ele estava prestes a entrar no seminário (ou tinha acabado de entrar, esta parte não me é clara).
Perante esta notícia, fiquei muito impressionado. Não tinham passado ainda dois anos da minha conversão a Cristo. Este juízo faço-o agora: era a primeira vez que alguém tão próximo de mim (um amigo de um grande amigo meu) entrava para o seminário. E isso marcou-me logo.
Esta informação fez-me olhar para o que tinha visto até aí, naquela noite, com outros olhos. Foi para mim uma novidade ver alguém tão feliz e que estava prestes a dar toda a sua vida a Jesus. Fez todo o sentido. Rever o pouco que tinha visto dele naquela noite deu ainda mais sentido à alegria que lhe vi. Teoricamente, já sabia que uma pessoa com a certeza da sua vocação seria muito feliz. Mas ali vivi isso, através dele.
Passou o casamento e nunca mais pensei nele. Naturalmente, quando se conhece muitas pessoas, e quando o evento principal era um casamento de um grande amigo, há certos acontecimentos que ficam para segundo plano.
Mas, ainda assim, algo ficou gravado. Aquele episódio só foi despertado anos mais tarde, quando, num gesto do Movimento Comunhão e Libertação, se falou sobre um seminarista de Barcelona que tinha morrido. Não tenho memória se isto foi logo após a sua morte ou passado algum tempo.
Lembro-me de comentar com alguém que talvez o meu amigo Michi o pudesse conhecer, já que tinha ficado a viver em Barcelona após o casamento. Já nem me lembrava deste facto quando fiz o comentário, mas a pessoa com quem falava também tinha estado no grupo que seguiu comigo de Portugal, naquela noite para Barcelona, para aquele bar.
Esta pessoa respondeu-me que não só o nosso amigo conhecia o Marcos, como também eu o conhecia. Tentei lembrar-me e perguntei quem era. Já me tinha esquecido que havia um rapaz nesse bar que tinha ido para o seminário, mas quando a pessoa que estava comigo me ajudou a lembrar, foi como se toda a memória daquele dia tivesse despertado. Foi uma memória e uma sensação que voltaram à tona, mas agora ainda mais intensas.
Percebi melhor o lugar de onde vinha aquela personalidade, aquela felicidade, aquela alegria e aquele modo de juntar as pessoas: esvaziado de si, cheio de Cristo, cheio de Graça e com muita graça. Afinal, aquele seminarista deu mesmo a vida a Cristo, só não foi no modo que me parecia mais óbvio. Pelo pouco que vi do Marcos, tenho a certeza que aceitou amorosamente o pedido de Deus. E é por isto que eu me lembro do Marcos, porque, quando se vê alguém que ama Jesus, vê-se Jesus, e isso não há como esquecer.
Martim, Vila Franca de Xira

Marcos Pou e Pablo Chevallard em Czestochowa (Polónia)

“Que belo rapaz!”
Conheci e estive com o Marcos nalguns encontros em Madrid, entre outubro de 2014 e janeiro de 2015, isto é, nos últimos três meses antes da sua entrada no seminário e da sua partida para o Céu. Lembro-me muitas vezes da primeira vez que o vi, em outubro: eu era a única que não era espanhola naquele grupo e o Marcos foi a primeira pessoa que veio ter comigo, com um sorriso, e me acolheu, tendo almoçado com ele à minha frente. “Que belo rapaz”, pensei eu naquela vez. Uma Beleza que pude confirmar quer durante esse encontro, quer em todos os seguintes em que nos vimos, tendo-me marcado muito a sua simplicidade e a sua permanente atenção e cuidado, não só comigo, mas com todos os que ali estavam.
Susana, Lisboa

O seu coração era igual ao meu
Conheci o Marcos um ano depois da sua morte através de umas fotocópias que me chegaram, da Minha História, de uma amiga que vivia em Barcelona. Naquele momento preciso da minha vida as palavras que lia naquele livro tornaram-se companhia. A partir daquele momento o Marcos tornou-se um grande amigo, sobretudo porque o seu coração era igual ao meu. Há 10 anos comecei a tentar traduzi-lo, 9 anos depois graças à amizade de um grupo de amigos foi possível e no Meeting Lisboa 2024 nasceu um encontro e a publicação d’ A Minha História.
Patrícia, Alverca

Deixar-se provocar
Conheci o Marcos a traduzir o seu livro, A Minha história. Nunca tinha ouvido falar dele.
No verão passado, palavra por palavra, lia, interpretava, traduzia e relia, em alguns casos, três e quatro vezes a mesma frase, para perceber bem o que tinha escrito. No fim do trabalho achei que o livro se podia intitular “A nossa história”. Sem precisar de grandes descrições, nada tem a ver a minha vida com a dele; começando pelo simples facto de eu ser uma mulher de trinta e cinco anos, casada e com filhos, a ler a história de um rapaz de vinte e três, com vocação sacerdotal, que já morreu. No entanto, a sua inquietação, a procura da Verdade, a necessidade de verificar aquilo que lhe era apresentado até então como certo, de seguir sinais que o aproximavam de Cristo, o desejo de um Encontro puro entre o criador e a Sua obra, foi, e é, o meu desejo, a minha necessidade, a minha inquietação, a minha procura. Ler e reler como responde o Marcos a esta provocação - no sentido etimológico do latim provocare, como quem é verdadeiramente desafiado, chamado para fora de si - tornou-se ele próprio num verdadeiro sinal no meu dia-a-dia. Sinal pelo qual estarei eternamente agradecida.
Sofia, Torres Vedras

Missa por ocasião dos 10 anos da morte do Marcos no Seminário Conciliar de Barcelona a 1 de março de 2025

Era mais leal com o nosso próprio desejo do que nós mesmos
Quando recebi a notícia da morte do Marcos, fui invadido por uma dor enorme, unida à certeza de que ele tinha sido chamado pelo Senhor, de que não tinha sido um erro ou uma casualidade.
Encontrando-me sozinho no Faial, onde vivia para estudar as baleias, fui para o único lugar onde podia viver essa dor: aos pés do Senhor e da Virgem, na Igreja Matriz, acompanhado pelo pároco Marco Luciano e pelas avós da paróquia, verificando nos seus braços como a Igreja é realmente mãe.
Nascemos os dois em 1991; para além do amor pelo futebol (onde o Marcos era claramente o melhor) e pelas montanhas, vivemos momentos decisivos tais como a peregrinação a Czestochowa ao concluir o colégio, o acampamento nos Picos da Europa ou os desafios da vida universitária, onde começámos o CLU como “caloiros”. Demos passos juntos nos quais descobríamos como a vida crescia em atratividade conhecendo o Senhor. Ainda que tivéssemos temperamentos distintos e nem sempre houvesse uma sintonia natural, isso foi uma ajuda para reconhecer durante esses anos tão importantes como a mudança que acontecia nele não nascia dele. Este é um ponto que agora, na minha vida adulta, me acompanha muito: o que é que tornou possível que o Marcos passasse de um “pirralho” a um homem capaz de abraçar tudo e todos? Foi um caminho que o levou a conhecer e a apaixonar-se cada vez mais por Cristo. E este caminho é uma possibilidade para todos.
Reconheço-me muito inadequado para falar do. De modo especial, por ter partilhado de perto tantas coisas que mudaram o seu coração e por descobrir o meu um tanto ou quanto mesquinho. Há um acontecimento que o seu tio Yago sublinhou no funeral: o Marcos foi-nos oferecido. Foi a modalidade escolhida pelo Senhor para tocar as nossas vidas. E a mim de um modo privilegiado. Apesar da intermitência presencial (estudei alguns anos da universidade fora), o Marcos pediu-me que o acompanhasse na diaconia quando lhe pediram que fosse responsável dos universitários do CL. Esse pedido, em primeiro lugar, foi uma surpresa, e agora reconheço-o como pura gratuidade para comigo. Foi um dom poder acompanhá-lo na sua responsabilidade e ver o quão apaixonado estava ele por Cristo, o quão urgente era reconhecê-l’O, e a provocação que era para todos nós estar diante dele. Era mais leal com o nosso próprio desejo do que nós mesmos. Não podia haver um instante banal: até o copo de água que tinha à frente tinha que lhe falar de Cristo!
É por isto que a minha inadequação já não é uma desculpa e é preciso regressar ao caminho. Se a mim me foi dado isto, é para o mundo e não apenas para mim.
Ao longo destes anos, e tendo como ponto em comum a morte do Marcos, vi os meus amigos a crescer. Converterem-se em homens e mulheres maduros. O Marcos tinha uma preocupação paterna por cada um, e de modo misterioso a sua morte foi como uma semente para todos nós. Como dizia o seu irmão Nico, um presente em forma de ferida para o resto das nossas vidas (diante do qual também teremos de prestar contas). Não querer viver por menos do que esse desejo fez com que eu fosse mais amigo dos meus amigos. Agora que passei das baleias às aulas, dou por mim surpreendido com os meus alunos que se interessam por um seminarista que nunca conheceram, e como o Senhor toca as suas vidas despertando neles o desejo. Como Deus gera ainda hoje através do Marcos! É por isso que o considero presente e mais meu amigo do que antes. A sua vida e a sua intercessão continuam, e neste caminho ao aprender a ser filhos, o Marcos acompanha-nos a conhecer o Pai.
Pablo, Barcelona (Espanha)