
«O carisma continua o seu caminho»
A homilia do arcebispo da Mãe de Deus em Moscovo, Dom Paolo Pezzi, durante a Missa por ocasião do aniversário da morte de don GiussaniQueridos irmãos e irmãs!
O autor do livro do Génesis define de forma muito sintética as consequências mais graves do pecado original (Gen 4:1-15, 25). Eva diz: “Porque Deus concedeu-me outro [filho]”. Uma relação normal e natural transforma-se em posse. Creio que todas as mães o sabem bem, porém esta tentação diz-nos respeito a todos. Quando perdemos o nosso ponto de referência, que é o próprio Deus, não sabemos a quem pertencemos. E então, a única saída é o desejo de possuir tudo.
Vimos aonde isto leva. Caim não suporta a relação com o irmão e mata-o, eliminando assim o problema. Como era a relação na sua origem? Poderíamos dizer que era virginal, ou seja, uma verdadeira relação de pertença. Numa relação verdadeira, possuímos verdadeiramente quele com quem estamos em relação.
A meu ver, um dos momentos mais tocantes e talvez mais fortes do carisma de don Giussani foi a sua perceção da virgindade. Quero desde já dizer que não se trata apenas da castidade, não se trata apenas daqueles que dão a sua vida inteiramente a Deus. A virgindade tem a ver com a relação com a mulher, com os filhos, com os pais, a relação com os amigos, a relação com as coisas. Sem virgindade, tudo se torna um desejo de poder. No fim de contas, em maior ou menor medida, é sempre assim.
Giussani deu-nos um caminho, um exemplo de regresso às relações virginais. Penso que a principal tarefa do sentido religioso seja a de descobrir que o facto de eu ter sido criado, de ser criatura, a minha pertença a Deus, não é um limite, não é um obstáculo a superar, mas alguma coisa que me permite viver e respirar plenamente, ser protagonista da minha vida. Mas para fazer isto, temos de reconhecer que não somos capazes de viver de modo virginal. Foi necessária outra mulher, Maria, que viveu todas as relações virginalmente.
Há um inconveniente. Na virgindade, vive-se tudo muito mais profundamente, por isso sofre-se mais. Por isso Maria se tornou uma fonte viva de esperança, de confiança: a relação com Deus permite-nos recomeçar todos os dias. Don Giussani deixou-nos o carisma, e o carisma é sobretudo um dom. O dom implica a perceção da própria vida, não como desejo de possuir coisas, mas como desejo de viver o facto de termos sidos criados.
Jesus – ouvimo-lo no Evangelho de hoje (Mc 8,11-13) – procurou ajudar as pessoas a perceber isto. Mas também aí Ele teve de ter em conta a liberdade humana, e nem sempre deu sinais e fez milagres. Porquê? Porque nalguns casos, os sinais teriam matado a liberdade dos homens. Ele não se mostrou como um milagre, mas como um sinal.
Giussani, a dada altura da sua vida, disse que Jesus é o sinal definitivo. Um sinal para cada um de nós. O carisma não acabou com a morte de Giussani, mas continua o seu caminho. E aquilo que devemos fazer hoje é permanecer neste caminho. Não há nada mais importante. E a única coisa necessária para o fazer é querer, mais do que qualquer outra coisa, seguir o carisma. Seguir para poder viver a relação virginal original que já nos faz felizes. Amén.
Moscovo, 17 de fevereiro de 2025