João Paulo II e don Giussani, em 1981 (© Fraternità CL)

A glória de Deus é o homem que vive

Vinte anos depois da morte de João Paulo II, a carta de don Giussani publicada no jornal italiano Panorama por ocasião do 25º aniversário do pontificado e das primeiras passagens da encíclica Redemptor hominis, de 1979
Luigi Giussani

João Paulo II demonstra uma estima pelo humano que raramente se encontra noutras personalidades do nosso tempo, que têm o poder nas mãos, mas não estão satisfeitas com aquilo que têm; a inteligência e a vontade do homem são de facto aniquiladas pelo poder que parece preencher e satisfazer a sua busca. Em João Paulo II, não é assim: na sua figura, o cristianismo define a condição humana, é o caminho para a realização da felicidade do homem e é expressão do domínio do homem sobre as coisas.

Acompanhando as vivências papais ao longo destes 25 anos, aquilo de que uma pessoa mais se dá conta é de que cristianismo tende verdadeiramente a ser a realização do humano. Todos os seus caminhos, como uma longa marcha para a morte, tiveram a sua razão de ser na unidade evidente que corresponde ao génio do cristianismo: Gloria Dei vivens homo. A glória de Deus é o homem que vive... na verdade da luz: Deus presente na história da humanidade. O homem que vive, como nos testemunha o Papa, encontra a sua racionalidade na identificação do cristianismo com o humano: é o homem realizado! Nossa Senhora é a progenitora desta humanidade realizada e isso justifica o afeto que João Paulo II nutre por Maria de Nazaré.

A importância deste Papa reside no facto de, durante um quarto de século, ter falado do cristianismo e de, por isso, ter entrado em polémica com toda a cultura pós-século XVIII, especialmente com a cultura baseada na Revolução Francesa. Numa época de derrotas, falou do cristianismo como vitória, sobre a morte, sobre o mal, sobre a infelicidade, sobre o nada que paira em cada sussurro humano, e fê-lo documentando como a sua fé cristã assenta numa racionalidade bem fundamentada; perante o colapso do mundo produzido pela ideologia, ofereceu uma explicação da fé repleta de provas racionalmente persuasivas. A sua fé é justificada com razões límpidas, de modo que o entusiasmo de muitos, de milhões de pessoas que o ouviram, não encontra pretexto em argumentos sobre os quais se possa discordar para diminuir a admiração por ele.

A página do ''Panorama'', de 30 de outubro de 2003, com a carta de don Giussani

Assim, a sua humanidade fisicamente ferida triunfou continuamente nas suas afirmações positivas e na força do seu chamamento.

Santidade, desejo-lhe uma vida o mais longa possível, para continuar a ser testemunha coerente desta forma suprema de desafio que, por amor de Cristo, representa para o mundo inteiro. E quanto mais esta palavra, Cristo, for ouvida, mais revelará o seu poder de persuasão.

O cristianismo de João Paulo II reflete toda a essência «secular» da mensagem cristã, ou seja, uma identidade entre humanidade e fé cristã. «Ciascun confusamente un bene apprende/ nel qual si queti l’animo, e disira:/ per che di giugner lui ciascun contende» [cada um, ainda que de forma confusa, intui um bem onde se aquiete a alma, e deseja-o, luta para o conquistar] (Purgatório, XVII). Dante é a definição perfeita duma existência racional. E desta humanidade, desta identidade entre humanidade e fé cristã, o maior sinal, aquele que nem todas as torturas e esquecimentos eliminaram do coração do homem, o sinal mais completo e conhecido de todos, é o matrimónio.

De facto, no discurso do Papa, a mulher para o homem e o homem para a mulher são o aspeto visível do triunfo, da flor que «germinou», como diz Dante no seu Hino à Virgem: a identidade da humanidade e da fé. A beleza e a capacidade de bondade desta unidade revelam-se no gesto sacramental que mais valoriza o humano que é o matrimónio e que está expresso nos discursos de João Paulo II.

O amor é o maior valor do homem e, por isso, a comparação do homem e da mulher é a fórmula representativa do ideal. O Papa é voz deste ideal, segundo o qual o homem só vive no amor, no amor verdadeiro. O homem torna-se verdadeiro no amor, por isso torna-se difícil concordarmos, por exemplo, com o poeta espanhol Juan Ramon Jimenez quando escreve: «Agora é verdade. Mas foi tão falso que continua a ser impossível».

No pensamento de João Paulo II, a humanidade realiza-se num amor real, que não teme o desespero, aquele amor que Dante canta na sua Vida Nova: «Amor, quando sì presso a voi mi trova,/ prende baldanza e tanta securtate,/… ond’io mi cangio in figura d’altrui». [junto da pessoa amada, sentimo-nos ousados, seguros… sentimo-nos na pele de outra pessoa]. É interessante reparar que, tal como em Dante, o olhar que o Papa tem sobre o amor humano está consciente daquela aproximação ao Ideal que existe em cada momento humano.

Por isso, na sua vida terrena, o homem vive com uma parte si à espera, mas isso nunca é impedimento para o reconhecimento ainda mais pungente de que a natureza (ou o Criador?) vive para o entendimento ideal, como ecoam ainda os versos da Vida Nova: «Uno spirito soave pien d’amore,/… va dicendo a l’anima: Sospira» [Um espírito suave cheio de amor,/... vai dizendo à alma: Suspira”].

Obrigado, Santidade.

(Jornal Panorama n.44 - 30 de outubro de 2003, pp. 39-40)


O início da primeira encíclica de João Paulo II, a Redemptor Hominis. Aquando da sua publicação, don Giussani propôs a todos os membros de CL que dedicassem o trabalho da Escola de Comunidade a este texto.

O Redentor do homem, Jesus Cristo, é o centro do cosmos e da história. Para Ele se dirigem o meu pensamento e o meu coração nesta hora solene da história, que a Igreja e a inteira família da humanidade contemporânea estão a viver. Efetivamente, este tempo, no qual, depois do predileto Predecessor João Paulo I, por um seu misterioso desígnio Deus me confiou o serviço universal ligado com a Cátedra de São Pedro em Roma, está muito próximo já do ano Dois Mil. É difícil dizer, neste momento, o que aquele ano virá a marcar no quadrante da história humana, e como é que ele virá a ser para cada um dos povos, nações, países e continentes, muito embora se tente, já desde agora, prever alguns eventos. Para a Igreja, para o Povo de Deus que se estendeu — se bem que de maneira desigual — até aos mais longínquos confins da terra, esse ano virá a ser o ano de um grande Jubileu. Estamos já, portanto, a aproximar-nos de tal data que — respeitando embora todas as correções devidas à exatidão cronológica — nos recordará e renovará em nós de uma maneira particular a consciência da verdade-chave da fé, expressa por São João nos inícios do seu Evangelho: «O Verbo fez-se carne e veio habitar entre nós»; e numa outra passagem «Deus, de facto, amou de tal modo o mundo, que lhe deu o Seu filho unigénito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna».

Estamos também nós, de alguma maneira, no tempo de um novo Advento, que é tempo de expectativa. «Deus, depois de ter falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitos modos, pelos Profetas, falou-nos nestes últimos tempos pelo Filho...», por meio do Filho-Verbo, que se fez homem e nasceu da Virgem Maria. Com este ato redentor a história do homem atingiu, no desígnio de amor de Deus, o seu vértice. Deus entrou na história da humanidade e, enquanto homem, tornou-se sujeito à mesma, um dos milhares de milhões e, ao mesmo tempo, Único! Deus, através da Encarnação, deu à vida humana aquela dimensão, que intentava dar ao homem já desde o seu primeiro início e deu-lha de maneira definitiva — daquele modo a Ele somente peculiar, segundo o seu eterno amor e a sua misericórdia, com toda a divina liberdade — e, simultaneamente, com aquela munificência, que, perante o pecado original e toda a história dos pecados da humanidade e perante os erros da inteligência, da vontade e do coração humano, nos dá azo a repetir com assombro as palavras da Sagrada Liturgia: «Ó ditosa culpa, que tal e tão grande Redentor mereceu ter».

João Paulo II, Redemptor hominis I,1