PÉGUY, POETA DA ESPERANÇA

Para Urs von Balthasar "toda a arte e teologia de Péguy converge para a oração”, mas o seu desejo de infinito é, simultaneamente, tão realista e tão universal, que José Tolentino de Mendonça o considera “um cristão na paróquia e no mundo”.
Cón. João Seabra

No centenário da morte deste génio francês, nome incontornável do pensamento cristão, a PASSOS recupera um texto do Padre João Seabra, publicado numa edição portuguesa do “Pórtico do Mistério da Segunda Virtude” (Grifo, 1998. Tradução: Henrique Barrilaro Ruas). Uma nova edição desta obra foi entretanto publicada (Paulinas 2014. Tradução: Armando Silva Carvalho) e aguarda-se, para o início de 2015, uma versão portuguesa de “O Mistério dos Santos Inocentes”. Urs von Balthasar refere que “toda a arte e teologia de Péguy converge para a oração”, mas o seu desejo de infinito é, simultaneamente, tão realista e tão universal, que José Tolentino de Mendonça o considera “um cristão na paróquia e no mundo”.

Charles Péguy passa de relance no horizonte da poesia, da política, da Igreja dos começos do século: tão de relance que podemos fazer de conta que não está lá, numa sagaz conspiração de silêncio de críticos literários que não o sabem arrumar em escolas, comissários políticos que não logram arregimentá-lo em boas causas, clérigos que não o conseguem enclausurar em esquemas pastorais e canónicos.
Órfão de pai desde a primeira infância, Péguy foi educado pela mãe, empalhadora de cadeias, e mais propriamente pela avó. Com ambas aprendeu as velhas orações da França católica e o caminho da igreja e da catequese. Mas nem uma nem outra foram capazes de o preparar para se defender, na escola, dos critérios quase religiosos da França laica e republicana. Filho intelectual da escola pública, o início da idade adulta encontrou-o filosoficamente agnóstico, socialmente laico, politicamente republicano e socialista.
Péguy vai descobrir-se cristão, mas nunca se considerará ‘convertido’ ao cristianismo: a palavra conversão aplica-a sempre somente, na memória da sua vida, à sua adesão ao socialismo. Em 1895, falando dela, escrevera: «Esta conversão permanece talvez o maior acontecimento da minha vida moral». Conversão é para ele o momento em que percebeu que devia dedicar toda a sua vida à salvação universal. Para isso, no generoso entusiasmo da juventude, torna-se socialista – mas no tempo, por dentro, cristão.
Péguy conhece um momento de protagonismo entre as hostes socialistas no tempo do “Affaire Dreyfuss”, contrapondo constantemente à “verdade do Estado” a Verdade, sem mais. A tentativa de aplicar o mesmo critério à vida do partido socialista – recusar a existência de uma verdade do partido, e dizer a verdade sobre homens, ideias, combates – enfrenta-o de maneira decisiva e definitiva com os seus companheiros. «Anarquista» – chama-lhe um deles –. «Marcharemos contra si com todas as nossas forças».
Nascem assim, em 1900, os Cahiers de la Quinzaine – um dos combates culturais mais originais e valoroso do nosso século. Durante catorze anos, com o apoio dos seus amigos e dos seus leitores – mas sem dinheiro –, trabalhou arduamente e enfrentou, para além da oposição de muitos, o silêncio e a incompreensão: «Vivemos num tempo tão bárbaro que quando se vê homens imprimir textos limpos num papel limpo com uma tinta limpa toda a gente grita: É preciso terem tempo para perder! E dinheiro! Não tempos tempo, não temos dinheiro, só temos a nossa vida para perder.»
Combatido ferozmente pelos socialistas seus amigos da véspera, Péguy não encontrará apoio verdadeiro na elite intelectual católica, que o recebe a benefício do inventário. Casado civilmente e com os filhos por baptizar, Péguy está fora da regra – e os seus amigos católicos, sobretudo os Maritain, insistem com ele para que se “decida”. E esta insistência – repassada de incompreensão pelo caminho de Péguy, feito de sacrifício e de esperança –, que se vai tornando impertinente e pouco caridosa, será uma das suas fontes de sofrimentos. Raïssa Maritain justifica a actuação do seu marido com um embaraço que revela a consciência de não ter a intelligentsia católica sabido compreender e amar Péguy.
A 1 de Agosto de 1914, Charles Péguy é mobilizado. Está a escrever a «Nota sobre Descartes e a filosofia cartesiana»: interrompe-se no meio de uma frase… a 4 de Agosto parte para a frente como comandante de uma companhia de infantaria. A 15 de Agosto, dia da Senhora da Assunção, vai à missa numa aldeia da frente; a 5 de Setembro morre, quase na primeira troca de tiros da guerra.
Foi em 1908 que Péguy se reencontrou católico. O cristianismo exprime-se no tríptico grandioso das virtudes teologais: em 1909-1910 escreve O Mistério da Caridade de Joana d’Arc; em 1911, O Pórtico do Mistério da Segunda Virtude; em 1912, O Mistério dos Santos Inocentes.
O Pórtico do Mistério da Segunda Virtude, o “mistério da Esperança”, é escrito num período de profundo desespero, um abismo de angústia: solidão crescente, indiferença dos católicos, distanciamento de alguns amigos da primeira hora, a dor viva da situação conjugal e sacramental não resolvida. E a tudo isto acresce uma paixão que Péguy não aceita mas que não domina. A 4 de Setembro de 1910 escreve a Madame Favre: «sofro muito… [mas] prefiro adoecer de trabalho que faltar à minha vocação por uma desordem do coração». Neste texto, a luta de Péguy contra o desespero, que é a grande tentação, é como um «canto de angústia que acompanha de uma ponta à outra a clara melodia da esperança».
Trata-se de uma longa contemplação, inteiramente posta na boca de Deus Pai através de Madame Gervaise, personagem que representa a Igreja. Péguy fala de esperança de um modo completamente novo, genial. Antes dele ninguém exprimiu o amor do Pai com tal audácia. «Nunca se escreveu tão cristão», dirá o grande teólogo Hans Urs von Balthasar.
No fim deste século onde a esperança se tornou um tema, filosófico e teológico, tão central e tão ambíguo, é refrescante reencontrarmo-nos com a concepção tão precisamente cristã, tão minuciosamente católica de Péguy. A esperança é uma certeza do futuro por força de uma realidade presente. Não uma certeza do futuro nascida de uma recusa dialéctica do presente, como nas violentas ‘esperanças’ marxistas, que cavaram na história do século tais abismos de desespero. Não uma certeza do futuro nascida de uma imaginação nossa sobre o futuro, como nos optimismos utópicos, as futurologias sociológicas ou políticas, as ficções ou previsões científicas, toda a descendência do iluminismo racionalista que renasce pujante neste fim de século, com a arrogância dos positivistas de há cem anos e dos enciclopedistas de há duzentos, repristinada pela falência das ‘esperanças’ dialécticas.
A esperança é uma abertura à possibilidade infinita que a graça abre no coração do homem, como uma árvore que lança os seus ramos ao sol mas cava as raízes na terra barrenta da natureza humana decaída – aquela consciência do limite, da fractura originária da alma a que o génio do cristianismo chamou “pecado original”. Por isso, nada é mais realista do que a esperança, menos passível de ilusões, mais decididamente anti-utópico. A esperança cristã é um olhar cheio de certeza sobre um futuro que cumpre a promessa da vida; e essa certeza nasce da experiência, feita hoje, de uma graça que vence o meu limite, aqui e agora.
Por isso a Igreja recorda constantemente a todos os seus filhos que são pecadores – e, a alguns, declara-os Santos, “canoniza-os”. Maior realismo e maior esperança, sobre esta terra dos homens, não há.
Péguy viveu os seus seis anos de catolicismo – sem poder confessar-se nem comungar, rodeado da incompreensão dos novos amigos e do sarcasmo dos antigos – como um sacrifício e uma esperança. Sacrifício quotidiano oferecido pela conversão da mulher e dos filhos, não exigida deles como um direito de chefe de família do código de Napoleão, ma suplicada na submissão ao Deus da esperança. A mulher e os filhos de Péguy baptizar-se-ão, vários anos depois da sua morte, no termo de itinerários espirituais próprios: um deles, julgando ser fiel ao pai, tornar-se-á protestante, a mulher e os outros filhos serão admitidos na Igreja Católica.
Está hoje em curso em França, e noutros países, um reexame da figura e da obra de Péguy que chega, em certos casos, como nos escritos de Alain Finkielkraut, a pôr o poeta e pensador dos Cahiers ao lado de Nietzsche e Heidegger, como um dos grandes do pensamento contemporâneo. Mas não é por adesão apressada a uma moda que entendemos (re)propor Péguy ao leitor português. A razão é mais mediata: no passo do Jubileu do Ano 2000, 1988 foi proposto à Igreja e ao mundo como o Ano da Esperança; ora, para saber o que é a esperança, o que realmente é a “pequenina esperança”, a “virtude menina”, não se pode dispensar a ajuda de Péguy e do seu Pórtico.
Não seria possível conhecer esta obra nas presentes condições sem a colaboração inestimável do Dr. Henrique Barrilaro Ruas, meu Amigo e meu Mestre, a quem o editor ousou pedir o trabalho de tradução. Com humildade, pôs-se integralmente ao serviço de Péguy, seguindo-o, mas seguindo-o em português, elegante, enxuto, vernáculo português. Rever com ele as linhas do Pórtico foi a aventura e o encantamento de reaprender a minha Língua, capaz de dizer assim, tão fiel ao poeta e tão fiel a si própria, um poema tão intrinsecamente francês; e reaprender este grande poeta da esperança, tão católico, tão intrinsecamente universal.