A ternura de Maria - Textos de João Paulo II

A ternura de Maria

João Paulo II Passos

15/08/2004

Trechos da homilia de João Paulo II. Lourdes, 15 de Agosto de 2004

“Naqueles dias, Maria pôs-se a caminho para a região montanhosa, dirigindo-se apressadamente a uma cidade...” (Lc 1, 39). As palavras deste trecho evangélico fazem-nos vislumbrar, com os olhos do coração, a jovem de Nazaré a caminho da “cidade de Judá”, onde morava a sua prima, para lhe oferecer os seus serviços.
Aquilo que nos surpreende acima de tudo, em Maria, é a sua atenção repleta de ternura pela sua parente idosa. Trata-se de um amor concreto, que não se limita a palavras de compreensão, mas que se compromete pessoalmente numa verdadeira assistência. À sua prima, a Virgem não dá simplesmente algo que lhe pertence; Ela dá-se a si mesma, sem nada exigir como retribuição. Ela compreendeu de maneira perfeita que, mais do que um privilégio, o dom recebido de Deus constitui um dever, que a empenha no serviço aos outros, na gratuidade que é própria do amor.
“A minha alma engrandece o Senhor...” (Lc 1, 46). No seu encontro com Isabel, os sentimentos de Maria brotam com vigor no cântico do Magnificat. Através dos seus lábios exprimem-se a expectativa repleta de esperança dos “pobres do Senhor”, e a consciência do cumprimento das promessas, porque Deus “se recordou da sua misericórdia” (cf. Lc 1, 54).
É precisamente desta consciência que brota a alegria da Virgem Maria, que transparece no conjunto do cântico: alegria de saber que Deus “olha” para Ela, apesar da sua “fragilidade” (cf. Lc 1, 48); alegria em virtude do “serviço” que lhe é possível prestar, graças às “grandes obras” que o Todo-poderoso realizou em seu favor (cf. Lc 1, 49); alegria pela antecipação das bem-aventuranças escatológicas, reservadas aos “humildes” e aos “famintos” (cf. Lc 1, 52-53).
Depois do Magnificat chega o silêncio; nada se diz acerca dos três meses da presença de Maria ao lado da sua prima Isabel. Talvez nos seja dita a coisa mais importante: o bem não faz ruído, a força do amor expressa-se na discrição tranqüila do serviço cotidiano.
Mediante as suas palavras e o seu silêncio, a Virgem Maria aparece como um modelo ao longo do nosso caminho. Não se trata de um caminho fácil: em virtude da culpa dos seus pais primitivos, a humanidade traz em si a ferida do pecado, cujas conseqüências ainda continuam a fazer-se sentir nas pessoas remidas. Mas o mal e a morte não terão a última palavra! Maria confirma-o com toda a sua existência, sendo testemunha viva da vitória de Cristo, nossa Páscoa.

(Texto publicado em Passos n. 54, set/2004)

© Fraternità di Comunione e Liberazione. CF 97038000580 / Webmaster / Note legali / Credits