Ventos de guerra: a guerra do Papa - Textos de João Paulo II

Ventos de guerra: a guerra do Papa

João Paulo II Passos

01/02/2003 - João Paulo II pela paz

O Papa é pela paz, não é um pacifista. Somente a paz de Deus pode dar novamente esperança à humanidade. As preocupações da Santa Sé nas últimas intervenções do Pontífice


Discurso do Papa João Paulo II para a tradicional troca de bons votos. Vaticano, 21 de dezembro de 2002

Ao refletir, como em geral faço nesta circunstância, sobre os principais acontecimentos que cadenciaram o meu ministério durante os meses passados, desejo fazê-lo na perspectiva sugerida pelo Rosário, ou seja, com um olhar contemplativo, que manifeste nos próprios acontecimentos o sinal da presença de Cristo. Neste sentido, na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae realcei o valor antropológico desta oração (cf. n. 25): formando-nos na contemplação de Cristo, ela orienta-nos a fim de considerarmos o homem e a história à luz do seu Evangelho. Em primeiro lugar, como podemos esquecer que o Rosto de Cristo continua a ter um traço de sofrimento, de verdadeira paixão, pelos conflitos que ensanguentam muitas regiões do mundo, e por aqueles que ameaçam explodir com renovada violência? Permanece emblemática a situação da Terra Santa, mas outras guerras "esquecidas" não são menos devastadoras. Além disso, o terrorismo continua a ceifar vidas e escavar mais fossos. Diante deste horizonte banhado de sangue, a Igreja não cessa de fazer ouvir a sua voz e, sobretudo, continua a elevar a sua oração.


Homilia na Santa Missa da Meia-Noite. Vaticano, 24 de dezembro de 2002

O Menino jaz na pobreza de uma manjedoura: este é o sinal de Deus. Passam os séculos e os milênios, mas o sinal permanece, e vale também para nós, homens e mulheres do terceiro milênio. É sinal de esperança para a inteira família humana; sinal de paz para os que sofrem por causa de todo género de conflito; sinal de libertação para os pobres e oprimidos; sinal de misericórdia para quem se encerra no círculo vicioso do pecado; sinal de amor e de consolação para quem se sente só e abandonado.

Sinal pequeno e frágil, humilde e silencioso, mas rico do poder de Deus, que por amor fez-se homem.


Mensagem Urbi et Orbi. Natal de 2002

Na gélida cabana, envolvida no silêncio, a Virgem Mãe, com o coração aflito, já sente o drama cruento do Calvário. Será uma luta dramática entre as trevas e a luz, entre a morte e a vida, entre o ódio e o amor. O Príncipe da paz, nascido hoje em Belém, dará a sua vida no Gólgota para que na terra reine o amor.Mistério de paz é o Natal! Desde a gruta de Belém eleva-se hoje um apelo urgente por que o mundo não ceda à desconfiança, à suspeita, ao desânimo, mesmo quando o trágico fenómeno do terrorismo aumente incertezas e temores. Os crentes de todas as religiões, junto aos homens de boa vontade, banindo toda a forma de intolerância e discriminação, são chamados a construir a paz: antes de mais, na Terra Santa, para freiar de uma vez
a inútil espiral de violência cega, e no Oriente Médio, para apagar os sinistros clarões de um conflito, que, com o empenho de todos, pode ser evitado; depois, na África onde carestias devastantes e trágicas lutas intestinas agravam as condições já precárias de inteiros povos, apesar de não faltarem sinais de otimismo; na America Latina, na Ásia, em outras partes do mundo, onde crises políticas, económicas e sociais perturbam a serenidade de muitas famílias e nações. Acolha a humanidade a mensagem de paz do Natal! Mistério adorável do Verbo encarnado! Junto a Vós, ó Virgem Mãe, ficamos a pensar diante da manjedoura donde jaz o Menino, para partilhar do vosso mesmo assombro diante da imensa condescendência de Deus. Dai-nos vossos olhos, ó Maria, para decifrar o mistério que se esconde nos frágeis membros do Filho. Ensinai-nos a reconhecer a sua face nas crianças de toda raça e cultura. Ajudai-nos a ser testemunhas credíveis da sua mensagem de paz e de amor, para que também os homens e as mulheres da nossa época, marcada ainda por fortes contrastes e incríveis violências, saibam reconhecer o Menino que está nos vossos braços o único Salvador do mundo, fonte inesgotável da paz verdadeira que, no íntimo, anseia todo coração.


Homilia na celebração das Vésperas e do "Te Deum" de Ação de Graças pelo final do ano. 31 de dezembro de 2002

O tempo, que teve início com a criação, alcança a sua plenitude quando é "visitado" por Deus na Pessoa do Filho unigénito. No momento em que Jesus nasce em Belém, acontecimento que tem um alcance incalculável na história da salvação, a bondade de Deus adquire um "rosto" visível e sensível (cf. Tt 3, 4). «Fiat misericordia tua, Domine, super nos, quemadmodum speravimus in Te - A Tua misericórdia esteja conosco: em Ti esperamos». A tua misericórdia, Senhor! Nesta Liturgia de fim de ano o louvor e a ação de graças são acompanhados por um sincero exame de consciência pessoal e comunitário. Pedimos perdão ao Senhor pelas faltas de que somos culpados, com a certeza de que Deus, rico em misericórdia, é infinitamente maior que os nossos pecados.

"Em Ti esperamos". Em Ti, Senhor, reafirmamos esta tarde depomos a nossa esperança. Tu, no Natal, trouxestes a alegria ao mundo, irradiando no caminho dos homens e dos povos a tua luz. As ansiedades e as angústias não podem extingui-la; o esplendor da Tua presença conforta-nos constantemente. Que todos os homens e mulheres de boa vontade encontrem e conheçam o poder do Teu amor e da Tua paz.


Homilia na Santa Missa do Dia Mundial da Paz e Solenidade da Santa Mãe de Deus. 1 de janeiro de 2003

"Que o Senhor Te abençoe e te proteja". Perante os acontecimentos que perturbam o Planeta, aparece com clareza que só Deus pode tocar o espírito humano na sua profundidade; só a sua paz pode voltar a dar esperança à humanidade. É preciso que Ele volva para nós o seu rosto, nos abençoe, nos proteja e nos dê o dom da sua paz. Por isso, é muito oportuno começar o novo ano pedindo-Lhe este dom tão precioso. Façamo-lo por intercessão de Maria, Mãe do "Príncipe da paz". (...) Quando foi escrita a Pacem in terris perfilavam-se nuvens ameaçadoras no horizonte mundial e sobre a humanidade pairava o pesadelo de uma guerra atômica. O meu venerado Predecessor, que tive a alegria de elevar às honras dos altares, não se deixou vencer pela tentação do desânimo. Pelo contrário, apoiando-se numa sólida confiança em Deus e na potencialidade do coração humano, indicou com força "a verdade, a justiça, o amor e a liberdade" como os "quatro pilares" sobre os quais construir uma paz duradoura. O seu ensinamento permanece atual. Hoje como então, apesar dos graves e repetidos atentados contra a serena e solidária convivência dos povos, a paz é possível e necessária. Assim, a paz é um bem precioso a pedir a Deus e a construir com todo o esforço, mediante gestos concretos de paz, da parte de todos os homens e mulheres de boa vontade. (...) Perante os conflitos de hoje e as tensões ameaçadoras do momento, mais uma vez convido a rezar a fim de que sejam procurados "meios pacíficos" de entendimento, inspirados por "uma vontade de acordo, leal e construtiva", de harmonia com os princípios do direito internacional. "Deus enviou o Seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, ...para que recebêssemos a adopção de filhos" (Gal 4, 4-5). Na plenitude do tempo, recorda São Paulo, Deus mandou ao mundo um Salvador, nascido de mulher. O novo ano abre-se, portanto, sob o sinal de uma mulher, sob o sinal de uma mãe: Maria. Seja Maria a ajudar-nos a descobrir o rosto de Jesus, Príncipe da Paz. Que Ela nos defenda e nos acompanhe neste novo ano: e obtenha para nós e para o mundo inteiro o desejado dom da paz!


Angelus. 1 de janeiro de 2003

Só do Senhor é que o mundo pode esperar a salvação. Só em Cristo conhece profundamente o coração do homem: acolhendo a força da sua graça todos podem realizar-se plenamente a si mesmos. Amparados por esta certeza, os crentes não perdem a esperança, mesmo quando se multiplicam os obstáculos e os atentados à paz. Há quarenta anos, num contexto de graves ameaças para a segurança mundial, o beato João XXIII publicava, com grande coragem, a Encíclica Pacem in terris. Desejei referir-me a este acontecimento significativo na Mensagem para este Dia Mundial da Paz. Como naquela época, também hoje se pede a cada um que dê o seu contributo para promover e fazer a paz, mediante opções generosas de compreensão recíproca, de reconciliação, de perdão e de atenção efectiva a quantos se encontram em dificuldade. São necessários "gestos de paz" concretos nas famílias, nos lugares de trabalho, nas comunidades, no conjunto da vida civil, nas organizações sociais nacionais e internacionais. Mas, sobretudo, nunca deixemos de rezar pela paz. Como não expressar mais uma vez os votos de que, por parte dos responsáveis, seja feito o possível para encontrar soluções pacíficas para as numerosas tensões em acto no mundo, sobretudo no Médio Oriente, evitando ulteriores sofrimentos àquelas populações já tão provadas? Prevaleçam a solidariedade humana e o direito! Caríssimos Irmãos e Irmãs, confiamos este pedido incessante a Maria, que hoje veneramos com o bonito título de Mãe de Deus, a Theotokos. Escolhida para ser a Mãe do Salvador, tornou-se aos pés da Cruz Mãe de todos os seres humanos. Que Ela nos obtenha um ano sereno e proveitoso, durante o qual se multipliquem "gestos de paz" que tenham sempre o carácter da profecia, isto é, a humildade de quem não se exibe a si mesmo, mas proclama o grande ideal da paz.


Angelus. Domingo, 5 de janeiro de 2003

O drama é que Cristo luz do mundo não é conhecido por muitos, não é acolhido por outros, e assim é rejeitado. Na nossa sociedade, infelizmente, está muito espalhada um cultura imbuída de egoísmo e fechada ao conhecimento e amor de Deus. É uma cultura que, recusando de facto uma sólida referência à transcendência divina, gera perturbação e insatisfação, indiferença e solidão, ódio e violência. Quão urgente é, pois, testemunhar com alegria a única mensagem de salvação, antiga e sempre nova, do Evangelho da vida e da luz, da esperança e do amor!
Maria, Estrela da evangelização, que invocamos com confiança, nos ajude sempre a permanecer fiéis à vocação cristã e possamos realizar as aspirações de justiça e de paz, que ardentemente desejamos no início deste novo ano.

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